domingo, 18 de maio de 2014

Dia 18 de Maio e a secular exploração brasileira

Caio Marçal

Naquele momento os discípulos chegaram a Jesus e perguntaram: "Quem é o maior no Reino dos céus? ". Chamando uma criança, colocou-a no meio deles, e disse: "Eu lhes asseguro que, a não ser que vocês se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no Reino dos céus. Portanto, quem se faz humilde como esta criança, este é o maior no Reino dos céus. "Quem recebe uma destas crianças em meu nome, está me recebendo“. Mateus 18: 1-5

O “Dia Nacional de Enfrentamento ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes”,  foi instituído por lei Lei Federal no dia 18 DE MAIO. Essa decisão marca uma conquista  histórica  pelos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes em todo o país.  
Essa data foi escolhida em memória da menina Araceli, que no 18 de maio de 1973, na cidade de Vitória (ES),  foi a vítima de um crime bárbaro chocou todo o país. Infelizmente esse crime de natureza hedionda, até hoje está impune. Esse dia é um convite para a sociedade brasileira reflita e se conscientize em relação a esse tipo de violência que macula a vida de nossos pequeninos. Nesse sentido, apoiamos  o  “Bola na Rede – Um gol pelos direitos de crianças e adolescentes“,  que tem como eixo maior o de enfrentamento à exploração sexual de crianças e adolescentes no turismo.  O Brasil é o segundo pais com o maior número de casos de exploração sexual de crianças e adolescentes no turismo em todo mundo
É preciso lembrar que esse tipo de crime não alicia preferencialmente qualquer criança, mas tem como vítima preferencial  meninas pobres e negras no Brasil, o que nos lembra das raízes fundantes de nosso país. A violência baseada no poder patriarcal primeiro atingiu os indígenas, veio depois com força descomunal contra negros e negras.  Porém, são essas negras o objeto  da tara do homem branco, fazendo-as escravas sexuais.  Além do abuso direto por parte de seus senhores, as escravas era também obrigadas a se prostituir como mecanismo  de maior lucro para seus donos. Segundo Gilberto Freyre, muitas delas eram obrigadas a se prostituir desde dez, doze anos.
Ao perceber o perfil dessas que são tragadas pelo sistema de exploração sexual no turismo no Brasil é uma versão moderna de que já havia no passado, pois reproduz as relações de poder de uma sociedade que ainda não rompeu dessa lógica escravocrata e machista. 
A memória do Dia 18 de Maio convoca para a superação de uma lógica que ainda não superou essa mentalidade desumana. Nossa intercessão é que a Igreja de Jesus entenda que a criança, tida como modelo no Projeto do Reino de Deus, seja voz em favor desses pequeninos escravizados pela maldade humana. 
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Caio Marçal é missionário e é Facilitador Nacional da Rede FALE

Dia 18 de Maio e Copa do Mundo: o que há para celebrar?

Dia 18 de Maio e Copa do Mundo: o que há para celebrar?
Alexandre Gonçalves

Corria o ano de 2009. Eu trabalhava como coordenador nacional do Programa CLAVES quando participei de um evento na Câmara Municipal de São Paulo para tratar do enfrentamento e prevenção da violência contra crianças e adolescentes. Naquela ocasião uma das falas ficou à cargo da Dra. Maria Amélia Azevedo, precursora e referência nacional nessa temática. Como era de se esperar a mesa principal estava composta por vários vereadores, dezenas deles, os quais nunca haviam levantado um dedo em favor das crianças em situação de risco. Mas lá estavam eles, fazendo bem o seu papel de aparecer na foto que seria manchete no dia seguinte na principal cidade do país.

Feitas as incontáveis e cansativas honrarias da casa, a Dra. Maria Amélia foi convidada a assumir o microfone e fazer sua apresentação. Havia uma grande expectativa por aquela apresentação, não somente de minha parte, mas de muitas outras pessoas como pude perceber nas conversas de corredor. E como era de se esperar a fala da Dra. Maria Amélia foi impactante, mas não do modo como muitos esperavam, principalmente os vereadores presentes. Logo de início ela afirmou: “a violência contra a criança e o adolescente começa aqui nessa casa.” Ela seguiu denunciando com enorme indignação a quantia irrisória de dinheiro investido pela prefeitura em educação, a ausência de programas específicos de prevenção, a inexistência de um sistema integrado de notificação, o sucateamento dos conselhos tutelares, dentre outros assuntos que geraram um enorme, mas extremamente necessário, desconforto entre os presentes. Por ocasião de mais um 18 de Maio, Dia Nacional de Enfrentamento ao Abuso e à Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes, e há um mês da Copa do Mundo as palavras da Dra. Maria Amélia me vieram à minha mente.

A disparidade entre o que foi gasto na preparação do Mundial – não só na construção superfaturada dos estádios e das chamadas obras de acessibilidade urbana (muitas inacabadas), mas também na segurança, reforçada para conter as manifestações que certamente se intensificarão – e o montante investido na infância e adolescência é gigantesca. Informações recentes e proveniente do próprio governo federal dão conta que os custos da Copa do Mundo no Brasil giram em torno de R$ 25,6 bilhões. Isso representa um número quase dez vezes maior do que o previsto, quando o país foi eleito para sediar o Mundial, há sete anos.

É importante ressaltar que, comparado com investimentos em outros setores, o investimento público nessa população é historicamente baixo, e não pode ser colocado somente na conta do atual governo. A possibilidade de sediar jogos da Copa do Mundo também fez com que os olhos de muitos governadores e prefeitos brilhassem, bem como os de seus amigos empreiteiros.

Há nessa disparidade histórica, ressaltada recentemente pela Copa do Mundo, uma relação perversa entre o poder econômico e a violação dos direitos humanos. Sabe-se, tanto por meio da imprensa, quanto dos profissionais do sistema de proteção à infância e adolescência e de pouquíssimos parlamentares envolvidos com o tema, que os canteiros de obras dos estádios que sediarão o Mundial da FIFA serviram como ponto para a exploração sexual de crianças de até 12 anos de idade. Ou seja, mesmo sendo o Brasil referência mundial com relação a uma legislação específica destinada para proteção e garantia de direitos de crianças e adolescentes, o ECA, e estando há alguns anos sob os holofotes da imprensa internacional, não conseguiu fiscalizar adequadamente sequer os principais palcos da grande festa que calcula-se, será assistida por aproximadamente 3,6 bilhões de pessoas em todo o mundo. Tampouco a FIFA sinalizou interesse em participar das discussões sobre o tema da exploração nos arredores dos estádios. Afinal, eles estão em um negócio, e não dispostos a contribuir para resolver os problemas sociais dos países por eles temporariamente colonizados.

Não se trata aqui da preocupação do Brasil em passar vergonha diante do mundo, mas de não se envergonhar diante de si mesmo, ao se dar conta de que, para sobreviver, meninas e meninos que deveriam estar estudando em escolas descentes tem os seus corpos e dignidade violados por alguns minutos em troca de alguns reais. Mas como diriam dois meninos pobres de outrora, agora adultos enriquecidos graças ao futebol e inúmeros contratos de publicidade, “não se faz Copa do Mundo com escolas”.

Não há como generalizar e dizer que nada foi feito. O Brasil realmente avançou desde a criação do ECA. Sistemas de notificação e denúncia foram criados, assim como conselhos nacionais, estaduais e municipais da criança e do adolescente, conselhos tutelares, varas da infância e da adolescência, equipes multidisciplinares de atendimento, acordos e convênios com organizações nacionais e internacionais de defesa de direitos, meios de arrecadação de impostos voltados para a infância e adolescência, etc. E é justamente pelas sementes que foram plantadas nesses anos que vejo como inadmissível que crianças e adolescentes continuem a serem comercializados neste país. Eu, como tantos outros profissionais, acreditamos na potencialidade do ECA, desde que ele seja plenamente e constantemente colocado em prática, não somente por este ou aquele governo, mas por toda a sociedade, como preconiza o estatuto.

Mas a julgar pela atual e abominável prática da exploração sexual comercial próxima ou distante dos estádios – não importa –, e pela ineficiência do poder público na tomada de providências urgentes, parece haver mais orgulho em sediar um mundial e atrair turistas, atraindo bilhões de reais para o setor privado, do que a honra de contribuir para a erradicação de da exploração sexual comercial de crianças e adolescentes deste país.

Trabalhando há quase 10 anos com a prevenção de diversos tipos de violência contra crianças e adolescentes, tenho plena consciência que a tarefa de sua erradicação é extremamente complexa. O problema envolve múltiplos fatores, como falta de educação sobre a sexualidade, frágeis laços familiares, incapacidade dos adultos em lidar com suas frustrações ou fantasias, incapacidade de ver a criança e o adolescente como sujeitos de direitos e não como objetos, cultura do consumo, machismo, sexismo, questões econômicas (no caso da exploração sexual comercial), dentre outros. A erradicação, se possível, será lenta e processual, e deverá envolver toda a sociedade em diversas frentes de atuação.

O sistema da exploração sexual comercial de crianças e adolescentes, assim como qualquer outro sistema opressivo e desumano, em última instância, faz daqueles que nele estejam envolvidos todos vítimas. Tanto a criança e o adolescente explorados sexualmente, a família pouco informada (ou tantas vezes conivente), os/as aliciadores/as, facilitadores/as, clientes, bem como todos/as aqueles/as que silenciam para a realidade da exploração, estão inseridos no ciclo da violência. Vítimas e vitimizadores são escravos de um sistema perverso que desumaniza a todos. Para romper com esse ciclo é preciso reconhecer sua existência, indignar-se contra ele, agir apropriadamente, seja na prevenção, no apoio às vítimas, na denúncia dos envolvidos para que sejam devidamente responsabilizados, e na cobrança constante das autoridades para que realizem seu papel, principalmente no que se refere à prevenção. Quando não lutamos para romper o ciclo da violência, contribuímos para sustentá-lo.

Naquele dia de 2009, a Dra. Maria Amélia Azevedo terminou sua desconcertante fala repetindo o que escreveu durante décadas e que motivou e continua a motivar diversos profissionais, mas que parece continuar passando ao largo dos administradores públicos: a questão da violência contra a criança e o adolescente é um tema de orçamento público.

Falar de investimentos maciços em educação, saúde, cultura, etc., já se tornou um lugar comum nesse país   Mas imagine o impacto que R4 25,6 bilhões bem investidos somente na prevenção e no enfrentamento da violência contra crianças e adolescentes teria a curto e médio prazo. Não se pode afirmar que com esse dinheiro se garantiria a erradicação do problema, pois há inúmeros fatores subjacentes a ele, como citei anteriormente. A questão é se existe vontade política para tal.
Que este 18 de Maio também sirva para nos conscientizar que nenhum candidato à cargo público deverá ter nossa atenção sem antes dizer o quanto pretende investir na infância e na adolescência, tanto para promovê-los enquanto seres humanos, quanto para protegê-los de situações de risco.

Alexandre Gonçalves
alexandre.gonca@hotmail.com
Consultor em Prevenção da Violência Sexual Contra Crianças e Adolescentes – Programa CLAVES Brasil
Mestrando em Teologia com ênfase em Estudos da Paz

Ministro da Igreja da Irmandade

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Alimento para a reflexão

Vinoth Ramachandra


Joseph Ratzinger, que acaba de renunciar como Papa Bento XVI, não foi tão popular, para não dizer tão santo,

como João Paulo II, seu predecessor. Mas ele adquiriu uma bem merecida reputação como “Papa Verde”, tornando o Vaticano o primeiro país neutro em carbono do mundo, colocando milhares de painéis solares nos seus telhados (um projeto que venceu o Prêmio Euro Solar 2008) e comprometendo o Vaticano com a obtenção de 20% de sua energia de fontes renováveis até 2020.


Ratzinger foi sempre um apaixonado por animais. Ele põe em prática o ensino oficial da Igreja, ensinando que devemos ser amorosos com os animais não-humanos, e que é moralmente errado causar neles sofrimento gratuito. Em entrevista a um jornalista alemão, antes de se tornar Papa, ele disse: “Os animais também são criaturas de Deus. Não há dúvida de que o tipo de uso industrial destas criaturas, onde gansos são alimentados de um modo a produzir fígados tão grandes quanto possível, ou frangos vivendo tão compactados que se tornam apenas caricaturas de pássaros; esta degradação das criaturas vivas em mercadorias parece, no meu entender, contradizer na verdade o relacionamento de mutualidade que se encontra na Bíblia”.


Em seu primeiro sermão como Papa ele retornou a este tema: “Os desertos exteriores estão crescendo no mundo porque os desertos interiores têm se tornado muito grandes. Os tesouros da terra não servem mais para construir o jardim de Deus para que nele vivamos; antes, eles têm sido feitos para servir aos poderes de exploração e destruição”.


O período de 40 dias da Quaresma no calendário litúrgico da Igreja foi pensado para ser um tempo de preparação espiritual para a Páscoa. Mas, na prática, a Quaresma muitas vezes se degenerou em atos de masoquismo sem sentido (de “Eu estou parando com o café/chocolate na Quaresma” a rituais de autoflagelação no “catolicismo popular”). Lembro de meus vizinhos muçulmanos que jejuam meticulosamente durante o dia durante o Ramadan, para depois festejar suntuosamente à noite.


Se o propósito do jejum é nos forçar (cristãos ricos) a ser mais atentos aos clamores dos pobres, a refletir sobre nossos estilos de vida egoístas e mudar de direção, então em vez de parar (digamos) de beber café por quarenta dias, seria melhor utilizar o tempo da Quaresma para estudar as condições sob as quais o café é produzido no mundo, quem ganha e quem perde, e então quem sabe boicotar as companhias de café gourmet cujos produtos nós consumimos impensadamente.


Na verdade, alimentação é um tópico que agrupa várias questões relacionadas à justiça. Parar apenas para nos perguntar “Quem faz a comida que comemos, e a que custo para o resto da criação e para as futuras gerações?” abre uma diversidade de desafios morais inquietantes.


Eis aqui apenas uma amostra:


1. Crueldade com animais. Você não precisa ser vegetariano para ficar horrorizado, como o Papa, com as condições terríveis sob as quais muitos animais são alimentados e mortos para satisfazer as demandas de uma sociedade de consumo. Porcos, gansos e patos confinados são tratados como “mercadorias” (separados de suas mães, artificialmente engordados e inseminados). Muitos de nós na Igreja participamos deste pecado estrutural através do nosso silêncio.


2. Práticas intensivas de agricultura e pesca. O uso de redes-arrastão em ampla escala, no Mar do Norte, tem exaurido os suprimentos de peixe, e o mesmo está acontecendo no Oceano Índico. Pescadores do Sri Lanka e do Sul da Índia se agridem quase todo dia ao longo da costa da ilha; a razão é que as águas costeiras do Sul da Índia têm sido desabastecidas de peixes pelos métodos de pesca insustentáveis, forçando os pescadores do estado de Tamil Nadu a pescar ilegalmente nas águas do Sri Lanka.


3. Desperdício. De acordo com o Instituto de Engenheiros Mecânicos da Inglaterra, cerca da metade da comida produzida no mundo a cada ano termina sendo desperdiçada. Eles culpam os prazos de validade desnecessariamente curtos, a prática do “compre-um-leve-dois” e as demandas dos consumidores ocidentais de comida cosmeticamente perfeita, juntamente com “práticas agrícolas e de engenharia pobres” e instalações de estocagem inadequadas em muitos países em desenvolvimento.


4. Mudanças climáticas. As comunidades pobres ao redor do mundo sofrem cada vez mais os eventos climáticos intensos e padrões variáveis de clima causados por emissões de gases de efeito estufa nas nações mais ricas. Desertificação, pragas e inundações estão crescendo a passos largos. O ano passado foi o mais árido da história dos EUA; enquanto que milhares de pequenos agricultores na Índia cometem suicídio a cada ano por causa das monções malsucedidas, endividamento a agiotas e a diminuição da terra arável.


5. Comércio injusto. Enormes subsídios governamentais pagos aos fazendeiros e ao agronegócio nos Estados Unidos e na União Europeia, combinados com impostos sobre a comida importada, significa que agricultores nos países pobres não podem competir e, assim, abandonam inteiramente a atividade agrícola. 75% da produção alimentar do mundo está nas mãos de apenas três corporações. Enquanto nenhuma decisão sobre os efeitos tóxicos dos alimentos geneticamente modificados (OGMs) nos seres humanos e no meio ambiente foi ainda tomada, a questão de quem tem acesso às sementes geneticamente modificadas tem uma resposta clara: apenas agricultores ricos podem comprar as sementes de gigantes como a Monsanto. Um sistema global de patentes injusto piora as desigualdades entre e dentro das nações.


Os profetas bíblicos foram fortemente críticos no seu desprezo daqueles que pensavam do jejum como uma técnica religiosa para ter Deus ao seu lado:


O jejum que desejo não é este:
soltar as correntes da injustiça,
desatar as cordas do jugo,
pôr em liberdade os oprimidos
e romper todo jugo?
Não é partilhar sua comida com o faminto,
abrigar o pobre desamparado,
vestir o nu que você encontrou,
e não recusar ajuda ao próximo?
(Isaías 58. 6, 7)


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Texto publicado por Novos Diálogos

terça-feira, 22 de abril de 2014

E o deserto florescerá...

Wesley Lima

"Então os coxos saltarão como cervos, e a língua dos mudos cantará; porque águas arrebentarão no deserto e ribeiros no ermo. E a terra seca se tornará em lagos, e a terra sedenta em mananciais de águas; e nas habitações em que jaziam os chacais haverá erva com canas e juncos." Isaías 35:6-7


Foto Otávio Nogueira
No Nordeste brasileiro se concentra a grande parte da população brasileira e o Sertão brasileiro, onde se encontra a beleza de um povo acolhedor, trabalhador, de "raça", mas é onde encontramos pobreza e miséria, coronelismo, comunidades quilombolas esquecidas, a  seca e escassez de recursos.

Ita Porto, da organização cristã Diaconia,  disse que:  "A falta de chuvas em períodos prolongados como o dos últimos 3 anos é considerado um desastre ambiental, considerado um dos piores dos últimos 50 anos. Segundo o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) já são cerca de 1.200 cidades espalhadas em nove Estados que já declararam situação de emergência. São 22% dos municípios do Brasil e quase 10 milhões de pessoas afetadas pelas secas na região. Todos os estados que compõe o semiárido nordestino estão passando por grandes dificuldades. Pernambuco, por exemplo, é o estado com maior número de municípios atingidos. Segundo a Compesa (Companhia Pernambucana de Saneamento), dos 185 municípios do Estado, 151 estão com algum tipo de déficit no abastecimento. Desses, 16 estão em colapso, sendo abastecidos por carros-pipa".

Mas somente as chuvas não resolveriam o problema do sertão de escassez, pois falta um projeto de desenvolvimento sustentável que consegueria prover qualidade de vida e bem estar a essa população e o reaproveitamento da água. O pesquisador Fonseca Neto, professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI), nos lembra que: "Dom Pedro II afirmou que venderia as joias da coroa para resolver o problema. O fato ocorreu em decorrência da grande seca ocorrida no Nordeste em 1877. Isso demonstra que o problema é falta de vontade política para dar uma solução de convivência com um fenômeno natural e previsível."

"Vou dizer uma obviedade, mas, às vezes, as obviedades nos ofuscam. Nunca se quis resolver esse problema porque a seca é um fenômeno natural, previsível, cíclica. Os índios que antecederam a nós se mudavam de um lugar para outro no tempo que apertava. Não se resolve porque não quer", comentou o pesquisador. Dessa dura constatação se desenvolveu uma nociva “Indústria da Seca“, que serve às eleições dos políticos e mantém o povo num patamar de subserviência a essa indústria. Encontramos exploração dos carros-pipa, com valor muito acima da média.

Certa vez estivemos na cidade de Caridade do Piauí com uma equipe missionária. Nos deparamos com uma casa com cisterna que estava com correntes  e cadeados, e perguntamos a dona da casa o porque daquilo. Ela nos disse que era o medo de outras pessoas a roubarem devido a escassez de água no local. Nessa cidade também encontramos o  "jumento-pipa" que servia para abastecer algumas casas com água, em sua maioria não potável. Infelizmente os poderosos ainda tratam o problema como uma mera máquina eleitoral que gira em torno do sofrimento alheio. As políticas públicas para o sertão são tratadas como políticas de emergência que acabam fortalecendo um ciclo que  conserva a estrutura política.

O que nós como igreja de Jesus podemos fazer? Devemos nos posicionar, orar e denunciar esse problema no sertão. A igreja, como povo e não apenas como instituição deve prover uma solução criativa e cobrar dos representantes uma medida sustentável para acabar com essa indústria da seca no Sertão. Devemos também expressar o amor de Deus a esse povo tão sofrido e mostrar através de uma missão encarnacional e servidora que Deus não se esqueceu deles.

Oremos a Deus para que as ordens e estruturas do mal sejam abaladas e que se levante um povo justo. E que nosso Senhor possa está provendo e dando influência a organizações missionais e de serviço cristão como: Rede FALE, ABU, JUVEP, ACEV, DIACONIA, MISSÃO LIVRES, PROJETO MAIS ÁGUA, ÁGUA LIMPA, PARALELO 10, TEARFUND, TSO e entre outras que tem se doado pelo sertão e encarnado o evangelho de Cristo em meio a tanto caos.


Wesley Lima, 21 anos, piauiense, outsourcing em TI, articulador no Piauí da Rede FALE. Tenho desenvolvido uma caminhada missional, cooperando com ações missionárias no Piauí e sertão nordestino e captação de recursos para desenvolvimento comunitário.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Soberania, terra e transgênicos: o discurso convence?

Rebecca Louise Nunn

No Encontro da 4ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional +2 em Brasília, que reuniu representantes da sociedade civil e do governo, conselheiros (as) dos CONSEAs municipais, estaduais e nacionais, promovemos um diálogo sobre soberania alimentar e acesso a terra. A conversa começou com uma história que se desenrolou mais ou menos assim:
Um belo dia, há alguns anos, os técnicos das grandes empresas do agronegócio chegaram aos sítios dos agricultores e agricultoras familiares oferecendo a solução de todos os seus problemas: as sementes transgênicas. De acordo com o discurso persuasivo dos técnicos estas sementes proporcionam a redução no uso de agrotóxicos, facilitam o manejo da lavoura e possibilitam maior lucro à família. Depois da liberação e comercialização da soja (há 15 anos), algodão (2005), milho (2007) e em breve do feijão (2015) transgênico, percebeu-se que este discurso veio para enganar e aprisionar os nossos agricultores.
Os (as) agricultores (as) foram enganados, pois na realidade as sementes transgênicas não reduzem o uso de agrotóxicos. Existem dois tipos de sementes transgênicas: aquelas tolerantes aos agrotóxicos e aquelas resistentes a insetos. Quando plantadas, estas sementes contaminam outras plantas ao redor – as tais “ervas daninhas” – e as tornam também resistentes aos agrotóxicos, e, em consequência, estas plantas se alastram pela plantação. Por outro lado, nem todos os insetos são afetados pelas plantas transgênicas resistentes a insetos e continuam a se alimentar destas plantas e a se reproduzem rapidamente, tornando-se uma ameaça ao cultivo pela ausência dos seus predadores naturais. Diante destas duas situações os (as) agricultores (as) veem a necessidade de usar ainda mais agrotóxicos e de recorrer a outros tipos de agrotóxicos, às vezes, mais tóxicos e até proibidos no país.
Enganados, pois ao invés de facilitar o manejo da lavoura, as sementes transgênicas levam os (as) agricultores (as) a trabalharem na terra para remover as plantas indesejadas e aplicar agrotóxicos para manter sua plantação.
Enganados, pois ao invés de aumentar seu lucro, os (as) agricultores (as) têm maiores gastos com o uso intensivo de agrotóxicos e o trabalho com a manutenção da plantação. Ainda mais, as sementes transgênicas são mais caras que as sementes convencionais e exigem o pagamento de royalties às empresas do agronegócio.
Enganados pela falácia dos técnicos, os (as) agricultores (as) familiares ficam aprisionados pelo contrato assinado com as empresas estabelecendo que não podem trocar sementes com outros agricultores. Aprisionados, pois sua terra está contaminada pelas sementes transgênicas, pois não possuem mais as sementes convencionais e as sementes crioulas que um dia tinham. Aprisionados, pois perderam sua soberania alimentar.
Quando o (a) agricultor (a) perde sua autonomia sobre o que plantar (quais sementes, plantas, alimentos) e como plantar (usando agrotóxicos ou não) devido aos argumentos enganadores do agronegócio, ele (a) perde sua soberania alimentar. Quando as terras plantadas com sementes transgênicas e as terras vizinhas são contaminadas por estas sementes, o (a) agricultor (a) perde o acesso à terra livre da transgenia. Quando o (a) agricultor (a) assume dívidas para pagar pelo uso de sementes transgênicas o seu direito à terra também pode estar ameaçado.
Os cidadãos também perdem sua soberania alimentar, a sua liberdade de escolher os alimentos, quando procuram o milho, o cuscuz ou o óleo de soja livres de transgênicos e não encontram, ou quando não sabem o que significa o símbolo “T” na embalagem dos alimentos comprados ou ainda quando não sabem o que significa um alimento transgênico e o risco trazido à sua saúde.
Vamos Falar em defesa da soberania alimentar e acesso à terra!

Agradecimentos: a Daniela Frozi conselheira do CONSEA nacional que organizou esta atividade integradora, a Gilles Ferment do Grupo de Estudos em Agrobiodiversidade (GEA) do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) que nos trouxe esta discussão; Tchenna Maso da Plataforma Dhesca Brasil (http://www.dhescbrasil.org.br); Marciano Silva da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida (http://www.contraosagrotoxicos.org) e a todos que participaram do diálogo!

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Rebecca Louise Nunn é nutricionista, mestre em Educação em Ciências e Saúde (NUTES/UFRJ), participa do programa da Rede Fale por Soberania Alimentar e Acesso a Terra e é membro da Rio Vivo Igreja Cristã no Rio de Janeiro.