quarta-feira, 10 de setembro de 2014

VOTO DE CAJADO: O ESCÂNDALO DA POLÍTICA EVANGÉLICA


É chegado mais um momento de corrida eleitoral na democracia brasileira. Tradicionalmente, as eleições são, para muitas pessoas, os únicos momentos em que se propõem a debater os processos de exercício da política. Lamentamos que a reflexão sobre nossa realidade política não seja parte do dia a dia, no acompanhamento de parlamentares, na discussão das grandes questões nacionais, na participação social e no monitoramento de políticas públicas, o que nos permitiria dar um salto qualitativo na construção de nossa democracia e num projeto de nação mais justo e equânime, com ética na política e boa governança nas políticas públicas.
Como observado desde a redemocratização e de forma crescente nos últimos anos, o voto evangélico é um dos componentes de grande destaque do processo eleitoral. Fruto da maciça expansão evangélica, sobretudo pentecostal, bem como de seus efeitos mesmo nos segmentos do chamado protestantismo histórico, a participação cada vez mais ativa de atores evangélicos dos mais variados matizes e concepções políticas e teológicas na política brasileira impõe um desafio de análise a todos que se detém a compreender a conjuntura eleitoral. Se por um lado, o tradicional desinteresse evangélico pela política já foi superado e cada vez mais os crentes deixam de voltar seus olhares apenas para o porvir; por outro, o investimento evangélico na política comporta uma série de práticas distintas e heterodoxas que não estão em consonância nem com a melhor tradição cristã de participação política (por ex., William Wilberforce, Abraham Kuyper, Martin Luther King Jr., José Míguez Bonino, Guaracy Silveira, Paulo Wright), nem com valores republicanos e democráticos.
No Brasil, há dois perigos diante do cristão que compreende que precisa atuar politicamente: o primeiro é achar que simplesmente por “ser crente” está abençoado para a política. Essa é a concepção que leva milhões de brasileiros a votar no “pastor” ou no “irmão abençoado pelo pastor”. Como consequência, muitos parlamentares são eleitos sem compromisso com a justiça ou a democracia, e sem coerência partidária, programática ou ideológica, e se tornam “despachantes de igrejas” – gente que vota sempre para a expansão do poder de suas igrejas, associações, rádios e empresas. Por fim acaba-se acreditando que a única – e mais rápida – solução para o Brasil é eleger um governante ou parlamentar “crente”, e declarar de boca que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. O segundo problema tem maior profundidade: é quando os cristãos acham que podem transformar a declaração fundamental do “eu creio” da sua fé em lei para ser imposta pelo Estado. Isso ocorre quando queremos reduzir o que consideramos a Revelação de Deus a uma mera proposição de solução para nossos problemas cotidianos, acreditando que existe uma “política cristã” ou uma “economia cristã”; ou seja, que sistemas políticos e econômicos podem expressar “fé”. Eles podem ser interessantes, justos, úteis e efetivos, mas não podem expressar fé no sentido da Revelação!
Nós da Rede FALE, cidadãs e cidadãos cristãos que compreendem e identificam sua missão na defesa dos direitos humanos e da justiça, denunciamos dois anos atrás, durante o último período eleitoral, o “voto de cajado”, assim conceituado a partir de uma metáfora que carrega em si o emblema da modernização conservadora que tanto nos assola: trata-se da releitura das velhas práticas de exercício do poder, incidindo de forma autoritária sobre o comportamento eleitoral da população (consagrado na literatura política como “voto de cabresto”), agora replicadas por pastores evangélicos junto a seus rebanhos nos arraiais evangélicos de todo o país. Evidentemente, nossa denúncia tem por alvo certas formas específicas de interseção entre as campanhas eleitorais e o eleitorado evangélico. Queremos afirmar novamente, de forma clara e inequívoca, nossa perspectiva sobre o que consideramos como “voto de cajado” e uma aberta condenação desta prática como traição à melhor tradição cristã de participação política.
Declaramos que a fé não pode ser tratada como moeda para se conseguir vantagens materiais ou simbólicas e é lamentável que a sede de poder, que tem contornos diabólicos, seja ainda hoje uma tentação para muitas lideranças cristãs. Os pactos espúrios com partidos ou candidatos para conseguir benefícios para igrejas ou denominações, como, por exemplo, a doação de terrenos para templos, obter concessões de rádios e TVs ou mesmo obter tratamento diferenciado perante a lei, são apenas alguns tipos de barganha, “acertos”, acordos e composições de interesse que infelizmente costumam acontecer “por trás dos púlpitos”, durante as campanhas eleitorais, envolvendo políticos e candidatos evangélicos. O papel da Igreja na sociedade, como bem disse o pastor batista Martin Luther King Jr., não é servir ao estado ou ser seu senhor, mas zelar para ser sua consciência crítica. Por isso, entendemos que a Igreja, antes de desejar as salas de poder, deve estar pronta para o Serviço, para a busca da justiça e para a propagação do Amor, valores capazes de transformar as estruturas da sociedade.
Somos a favor de que haja nas igrejas um processo comunitário de reflexão, oração e investigação de temas e os lideres devem se empenhar para que seus membros votem com ética e discernimento. Porém, a bem de sua credibilidade, eles devem evitar transformar o processo de elucidação política num projeto de manipulação e indução político-partidário. Ademais, no debate político-partidário, a opinião dos líderes deve ser ouvida apenas como a palavra de um cidadão/ã, e não como uma profecia, e a ética pastoral indica que ele/a não deve favorecer sua inclinação pessoal em detrimento da dos outros irmãos/ãs.
Denunciamos, portanto, como “voto de cajado”, as seguintes práticas e outras similares a estas:
- O uso do poder pastoral para guiar a consciência dos fiéis, como um curral eleitoral, em benefício de qualquer candidato.
- A utilização das Sagradas Escrituras ou de imagens bíblicas de forma capciosa, a fim de legitimar a candidatura de uns e demonizar a candidatura de outros.
-  A venda de consciência e dos votos dos membros da igreja a algum candidato, em troca de recompensas materiais concedidas “a liderança, congregação ou denominação.
- A permissão do uso do púlpito como plataforma de propaganda partidária e eleitoreira, ou de apresentação de quaisquer candidatos para fins eleitorais.
- A coação ou ameaça aos subordinados ou membros da igreja para que manifestem inclinações políticas iguais às de seus líderes para eleger candidatos de fora ou de dentro da igreja.
- A transferência da imagem de pastores ou líderes religiosos para candidatos em propaganda eleitoral, afirmando-os como candidatos escolhidos por Deus ou demonizando seus concorrentes.
- Lideranças evangélicas que demonizam opções políticas diferentes das suas, caluniando-as, em vez de ajudarem a fazer o debate sobre as propostas dos candidatos.
Convocamos os/as irmãos/ãs a terem cuidado com lideranças que defendem que as igrejas tenham “candidatos oficiais” para defender isso ou aquilo em nome da fé. Avalie propostas e programas de governo, investigue a trajetória dos candidatos, compreenda quais as principais funções e papéis que serão desempenhados pelos candidatos, vote com sua consciência!

Nesse momento especial de nossa nação, cumpramos com integridade e espírito Público nossa vocação de cidadãos e cidadãs brasileiros. Para os nossos irmãos e irmãs de fé, nosso estimulo é: “pratique a justiça, ame a misericórdia e ande humildemente com o seu Deus” (Miqueias 6.8).

5 comentários:

Carlos Henrique disse...

Os srs só podem ser infiltrados em nosso meio! Quem sabe não pertençam a OpusDei! Tendo como objetivo enfraquecer a participação dos nossos representantes na política. Poderiam sim os srs estarem lutando contra as propostas que visam
Enfraquecer os laços de família. A violência contra mulher, a exploração do trabalhador, a ineficiência do estado contra o tráfico de drogas e pessoas. A corrupção endêmica em nosso país. A redução da menor idade penal, a revisão do Código Penal. Etc. Tanta coisa mais importante! Os srs estão a serviço daquele que obscurece o entendimento, daquele que e o inimigo de nossas almas. No momento em que nós estamos frontalmente sendo atacados por grupos ativistas, e por uma mídia preconceituosa, os srs se "unem" a aqueles que não tem interesse de termos uma sociedade que preserva seus valores morais, éticos, familiares e cristãos. Os srs constituem-se amigos do mundo e inimigos de Deus.

Welington Ferreira disse...

UAU!
Muito bom os principios.

Celia Cruz disse...

Eu tenho por hábito acompanhar a atuação dos políticos no decorrer do ano, fora da época de propaganda eleitoral, principalmente nos que ganharam meus votos. Até evito assisti-la, porque aí já terei minha opinião formada, a partir do acompanhamento diário dos posicionamentos no Congresso, Câmaras e nas Comissões. Não me deixo levar pelas propagandas, porque não as considero verídicas, a maioria, são teatros e engodo.

Evandro disse...

Não adiante, pessoal. A Dilma e a corja do PT vai sair dessa vez. Se gostam tanto do marxismo, por que não se mudam para Cuba?

Ricardinho008 disse...

Carlos Henrique, mais uma vítima do voto de cabresto, quer dizer, do voto de cajado. Mais um cuja capacidade de pensar por conta própria é raptada pelos "políticos da fé cristã". É uma pena, o que alertam para o voto de cajado não são apenas cristãos, são pessoas que pensam na sociedade como um todo, que não é feita apenas de cristãos. A referência aos provérbios é muito pertinente.