domingo, 16 de fevereiro de 2014

Os novos órfãos

Por Caio Marçal

Não perverterás o direito do estrangeiro e do órfão. 
Dt 24.17

Na escala da opressão, via de regra os textos bíblicos falam do estrangeiro, da viúva e do órfão. Há uma clara intenção de que esses grupos, que nesse contexto são aqueles que estão em situação de desvantagem, precisam de maior proteção.

O órfão, na perspectiva bíblica, é aquele que proporcionalmente sofre mais a injustiça, por isso, é evidente que ele tenha atenção especial. De todos os que tiveram o azar de serem abandonados à própria sorte, são esses os que estão em situação de maior vulnerabilidade social. Isaías chega a nos dizer que o culto que Deus deseja é aquele que faz o bem, procura a Justiça, ajuda e oprimido, mas sem esquecer-se do órfão (Isaías 1.17). Qualquer tipo de religiosidade que não considere esses valores, se prostitui e macula a adoração ao Senhor.

Quando pensamos sobre quem seriam os órfãos de hoje, não podemos deixar de lembrar dos jovens, das crianças e dos adolescentes que estão à margem por falta de oportunidade de vida digna. Órfãos hoje não são apenas aqueles que não têm pai ou mãe, mas todos esses ainda em fase de desenvolvimento que não têm um sistema que os garanta viver plenamente suas potencialidades.

Esses “novos órfãos“ são os que mais sofrem com a violência brasileira, seja causada pela bala, pela imoral falta de investimento em políticas públicas específicas para o mundo juvenil ou pelo não cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente. Essa definição pode ser também estendida à juventude negra que padece um crescente genocídio que os aniquila.

Essa fase da vida, tratada ainda como uma época problemática do ser humano, retrata apenas que o problema maior é o mundo adulto, incapaz de zelar por aqueles, achando que a solução é tão simplesmente o seu encarceramento. Uma total inversão que denuncia o quão longe está a equidade, e não observa a sabedoria bíblica que nos ensina: Educa a criança no caminho em que deve andar, e ainda quando for velho, não se desviará dele (Provérbios 22.6).

No livro de Salmos, que registra preces, clamores e intercessões diante do Senhor, nos lembra de que essa fase especial da juventude deve ser cultivada com afinco e esculpida com esmero: Que os nossos filhos, na sua juventude, sejam como plantas em crescimento; que as nossas filhas sejam como colunas esculpidas de palácios (Salmos 144.12).

Minha oração é:

Senhor Nosso, não nos deixe esquecer que o Teu Reino não permite que deixemos de lados aqueles que esse mundo transformou em órfãos de direitos e oportunidades.

Que a nossa Adoração seja antes de tudo uma voz que clama pela Justiça. Reconhecemos, ó Deus, a nossa responsabilidade de fazer com que o Brasil seja mais justo e confessamos nossa culpa pelos jovens e adolescentes que são engolidos pela lógica perversa da violência.

Nos dê a sua Graça para servir e amar. Faz-nos vencer o medo irracional que hoje reina entre nós e que nos impede de tocar nos intocáveis desse mundo.

Em Cristo que, por meio do seu Sangue, nos adotaste eternamente. Amém. 

2 comentários:

Carlos Eduardo Gonçalves de Souza disse...

Bom texto...quero parabeniza-los pelo trabalho

Graça Ribeiro disse...

Excelente texto. Peço licença para compartilhar o texto e em especial, a belíssima oração. Obrigada.