quinta-feira, 4 de julho de 2013

Evangélicos e Estado Laico: reflexão necessária



“Não por força nem por violência, mas pelo Meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos “(Zacarias 4:6).

Protestante proibido de se enterrado 
no cemitério em Aracati - CE

Na manhã do dia 28 de junho de 2013, a Rede FALE esteve junto com diversas lideranças de movimentos juvenis numa reunião com  a presidenta da Republica, Dilma Rousseff. Morgana Boostel, secretária executiva da Rede FALE e nossa representante nesse encontro, ressaltou entre outas questões, a defesa do estado laico.

Há aqui uma pergunta essencial: Por que a defesa do estado laico é tão cara para uma rede que tem viés evangélico? Como esse tema se insere nas bandeiras necessárias para o amadurecimento da democracia brasileira?
Em primeiro lugar, urge lembrar que o protestantismo no seu início sentiu na pele como um estado cooptado por um determinado grupo religioso hegemônico (Catolicismo) pode causar estragos. O Protestante não apenas entrou pelas portas do fundo na vida brasileira, como lhe é negado uma série de direitos como, por exemplo, ser enterrado num cemitério público, ter seu casamento reconhecido pelo estado ou liberdade plena de culto. Isso sem falar nas violências que somente a discriminação pode causar naqueles que se tornam alvos preferenciais. Não faltam na história do seu nascedouro de relatos de abusos, agressões, humilhações e desrespeito contra seus adeptos.

Porém é nesse contexto lúgubre, que se constrói uma das grandes contribuições dos evangélicos para nosso país: a defesa do estado laico. Nomes como Robert Kalley, líder congregacional, são importantes na pressão feroz junto as autoridades do Brasil para que houvesse separação entre igreja e estado. Na constituição de 1891 da então recente república brasileira, é consagrada separação entre a igreja e o estado, bem como outras medidas tais como a plena liberdade de culto e a secularização dos cemitérios.

Embora esses direitos reconhecidos sejam conquistas importantes, não significa que essas não sofreram muito para se tornarem efetivos. Não faltaram tensionamentos que forçaram diversos grupos (dentre eles os protestantes) a defenderem a manutenção do estado laico.  Quando em 1925,  se é proposto emendas a constituição que dariam reconhecimento oficial para Igreja Católica como a religião oficial do Brasil e que a mesma teria o papel de controlar a educação nas escolas públicas, igrejas evangélicas lideradas pelo reverendo presbiteriano Erasmo Braga na luta pela preservação dos seus direitos.

Percebemos aqui que existe um longo histórico de engajamento social em favor da laicidade do estado. É preciso lembrar que esse direito não apenas reconhece a pluralidade de religiões, mas que nenhum grupo que se valha de sua força ou influência no âmbito dos poderes de nosso país, pode usá-la para exercer de forma ilegítima a tirania sobre aqueles que fazem opção de fé diversa àquela que diz professar.

Cartaz da Campanha contra o voto de Cajado
Como uma rede que tem em sua matriz a fé no Cristo, não podemos aceitar que se use o estado para converter nosso semelhante na marra. É preciso lembrar o quão desastroso quando a Igreja se assenhorou dos tronos desse mundo para impor seus valores de forma equivocada. Reafirmamos aquilo que proclamamos outrora na Campanha Contra o Voto de Cajado: Deus não precisa de precisa de apadrinhamento político para cumprir seus propósitos na História e é Ele quem defende sua Igreja. A Igreja, antes de desejar os tronos desse mundo, só reina pelo Serviço, na busca da Justiça e pela propagação do Amor que encontramos nos braços afetuosos do nosso Pai Eterno.

Em tempos de voto de cajado e na transformação de igrejas em currais eleitorais para fins pouco republicanos, é necessário reconhecer que ainda hoje a tentativa de fragilizar essa contribuição tão relevante do protestantismo brasileiro. É lamentável que o esquecimento de nossa história faz com que alguns irmãos cometam o equívoco de se mancomunar com os Reinos desse mundo para impor sua fé. Não podemos agora usar as mesmas armas que afligiram nossos irmãos no passado. Em respeito ao legado de nosso passado, não há outro caminho senão defender a laicidade do estado. Caso contrário, negaremos nossa identidade como seguidores de Jesus, o Nazareno.

Em Cristo,

Caio Marçal – Missionário e Sec. de Mobilização da Rede FALE

8 comentários:

Wolô disse...

.
Cogitava um dia desses...
.
Supondo que um Estado sem pessoas não possa existir;
e
Nem todas as pessoas afetadas pela existência de um Estado são puramente leigas;
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A existência de um Estado laico é impossível.
.
O que lhe parece?
.

Morgana Boostel disse...

Olá Wolô!
Um estado laico não extingue a possibilidade de se ser religioso. A questão é que não pode permitir que algumas posições religiosas sejam defendidas em detrimento de outras. Vivemos em um pais plural religiosamente, não há como legislações e praticas politicas sejam definidas privilegiando algumas apenas. Defendemos um modelo de laicidade em que seja garantida a coexistência das religiões e um estado que legisle em beneficio de todos e todas.

Jessiiiih =) disse...

PALMAS (CLAP CLAP)

Leonardo J. N. Félix disse...

Uma parcela dos cristãos acredita na falácia de que a laicidade do Estado é igual a ateísmo. Como bem explicou a Morgana, a laicidade permiti a coexistência de várias religiões, inclusive dos ateus.

Leonardo Félix
Meu blog: http://criticasagrada.blogspot.com.br/

TRINDADE disse...

Trindade:
Ao ler esse texto me veio uma pergunta: O Estado é laico, mas os eleitores e os políticos o são?
Eu credito que o Estado deva ser laico, mas o eleitor tem que ser politizado o suficiente para conhecer as ideologias políticas para não serem enganados, por exemplo, porque temas que agridem aos valores cristãos são praticamente suprimidos dos debates?
São várias as perguntas que me vem à mente quando esse tema é colocado, outro exemplo: É lícito o cristão votar em candidatos e ou partidos de ideologias que quando no poder tentou acabar com o cristianismo?
Enfim, eu credito que os líderes cristãos devem sim politizar seus membros, para evitar que candidatos e partidos anti-cristãos sejam eleitos, pois em nossa sociedade somos mais de 90% da população, então porque ficar correndo atrás para a não aprovação de projetos que nos prejudicariam na missão de anunciar o evangelho?
Também acredito que o cristão que votar consciente em um partido ou candidato que é a favor da liberação do aborto, esse cristão é cúmplice dos atos desse candidato, se ele for eleito e tentar descriminalizar o aborto.

TRINDADE disse...

Ao ler esse texto me veio uma pergunta: O Estado é laico, mas os eleitores e os políticos o são?
Eu credito que o Estado deva ser laico, mas o eleitor tem que ser politizado o suficiente para conhecer as ideologias políticas para não serem enganados, por exemplo, porque temas que agridem aos valores cristãos são praticamente suprimidos dos debates?
São várias as perguntas que me vem à mente quando esse tema é colocado, outro exemplo: É lícito o cristão votar em candidatos e ou partidos de ideologias que quando no poder tentou acabar com o cristianismo?
Enfim, eu credito que os líderes cristãos devem sim politizar seus membros, para evitar que candidatos e partidos anti-cristãos sejam eleitos, pois em nossa sociedade somos mais de 90% da população, então porque ficar correndo atrás para a não aprovação de projetos que nos prejudicariam na missão de anunciar o evangelho?
Também acredito que o cristão que votar consciente em um partido ou candidato que é a favor da liberação do aborto, esse cristão é cúmplice dos atos desse candidato, se ele for eleito e tentar descriminalizar o aborto.

TRINDADE disse...

Ao ler esse texto me veio uma pergunta: O Estado é laico, mas os eleitores e os políticos o são?
Eu credito que o Estado deva ser laico, mas o eleitor tem que ser politizado o suficiente para conhecer as ideologias políticas para não serem enganados, por exemplo, porque temas que agridem aos valores cristãos são praticamente suprimidos dos debates?
São várias as perguntas que me vem à mente quando esse tema é colocado, outro exemplo: É lícito o cristão votar em candidatos e ou partidos de ideologias que quando no poder tentou acabar com o cristianismo?
Enfim, eu credito que os líderes cristãos devem sim politizar seus membros, para evitar que candidatos e partidos anti-cristãos sejam eleitos, pois em nossa sociedade somos mais de 90% da população, então porque ficar correndo atrás para a não aprovação de projetos que nos prejudicariam na missão de anunciar o evangelho?
Também acredito que o cristão que votar consciente em um partido ou candidato que é a favor da liberação do aborto, esse cristão é cúmplice dos atos desse candidato, se ele for eleito e tentar descriminalizar o aborto.

Andre disse...

O cristão verdadeiro tem obrigação de defender a fé em todos os lugares.A ação de castrar os cristãos de seguir a sua consciência mesmo em questões políticas é na verdade a tentativa de fazer com a igreja protestante o que fazem com a igreja católica.Em suma,substituindo o cajado pela mordaç a, para que nos aconteça o mesmo das igrejas européias.