quinta-feira, 5 de novembro de 2015

PEC 215: um ataque ao povo indígena


José Carlos M. Filho e Caio César S. Marçal[1]


“Ai dos que ajuntam casa a casa, dos que acrescentam campo a campo, até que não haja mais lugar, de modo que habitem sós no meio da terra“!
Isaías 5-8

“Que novos males
Nos resta de sofrer? - que novas dores,
Que outro fado pior Tupã nos guarda?
 - As setas da aflição já se esgotaram,
Nem para novo golpe espaço intacto
Em nossos corpos resta“.
I-Juca-Pirama- Canto VI- Gonçalves Dias



Tramita nesse momento no Congresso Nacional a Proposta de Emenda à Constituição 215 (PEC 215), projeto de modificação constitucional que representa talvez um dos maiores ataques aos direitos indígenas já vivenciados na democracia brasileira. Em síntese, a PEC 215 transfere a competência para a demarcação de terras indígenas para o Congresso Nacional, retirando esta atribuição do Poder Executivo.
O que está em jogo é o risco a preservação do já reduzido remanescente indígena do nosso país, uma vez que a demarcação de suas terras se tornará objeto de negociatas políticas e da resistência da bancada ruralista, que conta com força considerável. Num Congresso composto majoritariamente por parlamentares ligados ao agronegócio e a outros setores econômicos que possuem interesse direto sobre (e contra) as terras indígenas, não deixa de ser preocupante que essa proposta seja aceita. É preciso que se diga que nossa Constituição Federal reconheceu como fundamental o direito originário dos povos indígenas à ocupação tradicional de seus territórios, bem como  de seus costumes, línguas, tradições e  organização social. O Brasil é a nação que tem a maior variedade de povos indígenas em todo mundo, e a conservação dessa diversidade depende essencialmente da garantia de fruição de seus territórios tradicionais.
Caso a PEC 215 seja aprovada, representará o fim do reconhecimento do direito originário dos povos indígenas sobre suas terras, pois ao invés de simplesmente se identificar quais regiões são historicamente ocupadas por populações originárias para lhes conceder o seu devido restabelecimento na área, a demanda das demarcações dependerá do resultado do processo político majoritário, processo esse no qual as populações indígenas são sempre minoritariamente representadas, ao contrário de seus opositores. Em resumo, o que antes era tratado como o reconhecimento de um direito passará a ser visto como uma demanda que poderá ou não ser atendida pelo Congresso Nacional a depender da vontade política de cada parlamentar e dos diversos interesses, especialmente econômicos, que se encontrarem em jogo.
É necessário que oremos e atuemos contra tamanho equívoco. Não devemos aceitar que os povos originários sejam arrancados de suas terras e que o reconhecimento de seu direito de existir seja vendido no balcão de negócios da política suja e de interesses inconfessáveis. Nós, povo evangélico que cremos em um Deus de Justiça, Criador e Senhor Soberano de toda a terra e tudo que nela há, não podemos aceitar que um bem que deve ser usado em benefício de todos, seja retirado daqueles que mais precisam e mais legitimamente o possuem e por isso assim nos manifestamos: Não a PEC 215!



[1]José Carlos é advogado e é articulador da Rede FALE em Uberlândia. Caio Marçal é Missionário e é da Coordenação Nacional da Rede FALE

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Manifesto Evangélico Pró Indígena denuncia abusos


A violência contra povos indígenas se intensificou nos últimos tempos, sobretudo aos Guaranis-Kaiowás, no Mato Grosso do Sul.  Ante a essa situação, mais de  vinte organizações, igrejas e redes evangélicas, entre elas, a Rede FALE, assinaram um manifesto contra a violência a indígenas.

O  “Manifesto da Frente Evangélica Pró Indígena”, tem como finalidade mobilizar a igreja cristã evangélica para orar a fim de que todos os povos indígenas gozem de paz permanente e para que haja a demarcação e homologação de suas terras; e apoiar, manifestar solidariedade, pressionar através de ações de defesa de direitos os órgãos governamentais responsáveis pela causa indígena e usar de todos meios legais para fazer valer os direitos dos povos indígenas à terra que lhes pertence.

Nos últimos 12 anos cerca de 585 indígenas perpetraram suicídio e outros 390 foram  violentamente assassinados no Estado, afirma o manifesto.  Ainda conforme o documento, com a interrupção dos procedimentos de demarcações de terra, cerca de 45 mil Guaranis-Kaiowás continuam comprimidos em apenas 30 mil hectares de suas terras tradicionais.
Entre as reivindicações das organizações, está a não aceitação da PEC 215,  que transfere do Executivo para o Legislativo a competência sobre a demarcação de terras. Segundo o manifesto, seria algo como “dar à raposa a guarda do galinheiro”. Desde 2013, a Rede Fale tem se mobilizado contra esse projeto.


As organizações evangélicas promotoras do manifesto são as seguintes: Aliança Cristã Evangélica Brasileira, Tearfund, Ame a Verdade: Evangélicos contra a Corrupção, Visão Mundial, Instituto Solidare, Renas, ACEV, MEP, Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, Missão Aliança, Igreja Evangélica Congregacional de São Luís, ITEBAS – Instituto Teológico Basileia, Núcleo da FTL-B em São Luís, 2a. Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte, Ser Sustentável, Igreja Batista da Redenção de Belo Horizonte, Missão Emanuel, Rede Fale e ALEF (Associação de Líderes Evangélicos de Felipe Camarão).

Para ler e assinar o “Manifesto da Frente Evangélica Pró Indígena”, CLIQUE AQUI.

Seminário debate relação entre discursos religiosos e violência



Por Clara Cavalcanti
“Quero entender como posso abrir espaço, na minha comunidade de fé, para o diálogo sobre as questões de gênero, principalmente a respeito da violência doméstica. Percebo que existem poucas oportunidades para o debate e, também, certa dificuldade das próprias mulheres em reconhecer o lugar de submissão no qual são colocadas”. Este foi o motivo que levou o estudante de Ciências Sociais, Marco Aurélio Neves, 18 anos, a participar do “I Seminário Discurso Religioso e Violência Contra a Mulher”, uma iniciativa da Diaconia e do Coletivo Vozes Marias para promover a reflexão sobre a influência dos discursos religiosos na construção de práticas sociais de violência contra o sexo feminino. 

O evento, realizado na última quinta-feira (24), reuniu cerca de 50 participantes no Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Durante a sua apresentação, o professor da PUC Minas, Adilson Schultz, destacou a importância de uma visão crítica sobre os textos bíblicos. “A Bíblia foi escrita para que a vida seja plena. Ao ler uma passagem, devemos nos perguntar se ela, de fato, garante vida plena aos envolvidos, se ela é justa. Também precisamos desmistificar aquela história de que religião não se discute. A reflexão faz falta nas nossas igrejas”, disse.

Na mesma linha, a professora da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), Lilian Guarani-Kaiowá Lira, destacou a necessidade não só das congregações, mas da própria sociedade em geral, ampliar os espaços de debate e reflexão sobre a equidade de gênero. “É preciso romper o silêncio e admitir que a violência contra a mulher existe, também, no espaço religioso. Temos que envolver as comunidades nesse debate e trabalhar a temática, desde cedo, com as crianças, para que possam entender e respeitar a diversidade da nossa sociedade”, afirmou.

A professora da Fundaj, Denise Botelho, apresentou o papel da mulher nas religiões de matriz africanas, ocupando lugar de destaque no sacerdócio, e destacou a importância de se “descolonizar práticas culturais hegemônicas, racistas e machistas”. “É preciso bom senso e educação para que a oportunidade do diálogo não seja, de cara, encerrada. Podemos achar brechas para discutir as questões de gênero em qualquer religião. A criação de seminários, rodas de conversas e outros espaços também são formas para repensar e discutir sobre algo que está posto”, observou.

O “I Seminário Discurso Religioso e Violência Contra a Mulher” contou com o apoio da Igreja da Suécia, Rede Fale Recife, UFPE, Núcleo de Discurso, Identidade e Pluralismo Religioso, Centro de Educação e Fundaj. 

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Publicado originalmente em http://www.diaconia.org.br/novosite/midia/int.php?id=953

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Menino Aylan e os povos indígenas no MS

Texto de Dom Juventino Kestering


Estamos acompanhando as chocantes realidades com os imigrantes refugiados na Europa e o conflito no Mato Grosso do Sul envolvendo os povos indígenas e fazendeiros.


Até os mais indiferentes ficaram chocados com rostos de homens, mulheres e crianças no grito de desespero à procura de vida mais digna, longe das atrocidades da guerra e da intolerância religiosa.

A imagem do menino Aylan Kurdi deitado, sem vida, na praia, clama os céus. “A morte da criança é o símbolo mais perverso do desespero de milhões de imigrantes e refugiados que fogem da violência e da miséria na África e no Oriente Médio. É a desumanidade humana, fruto de sistemas políticos e econômicos errados”.

Assistimos, também, o sofrimento dos povos indígenas no Mato Grosso do Sul. Cenas de violência, mortes, ocupação militar. Tanto lá no Oriente Médio e na Europa como em Mato Grosso do Sul, o sofrimento maior é dos pequenos, dos pobres, das crianças.

Como igreja católica, fiel à missão de Jesus, não podemos ficar indiferentes diante da dor, injustiça, violência, atrocidade.

A diocese de Rondonópolis – Guiratinga conclama todos os católicos e, também, homens e mulheres de boa vontade, para neste final de semana, dias 5 e 6 de setembro viverem “um dia de solidariedade, de compromisso e de orações em favor dos imigrantes no Oriente Médio, Europa e em favor dos povos indígenas no Mato Grosso do Sul”.

O sofrimento dos irmãos é o nosso sofrimento. “Eu estava com fome, era peregrino, estava na prisão, e tu me acolheste”. Sintamos a dor. Sejamos solidários, onde um irmão está sofrendo é Jesus quem sofre.

Menino Aylan Kurdi, não morreste em vão! Tua vida, teu sonho de criança ceifado vai ser semente de um mundo renovado. Que tua vida converta meu coração!


Povos indígenas do Mato Grosso do Sul, povos nativos, com nosso apoio e solidariedade teus filhos vão ver dias melhores e condições de vida digna.


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Texto de Dom Juventino Kestering - Bispo Diocesano Rondonópolis – Guiratinga
Retirado do site do Conselho Indigenista Missionário 

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Identidade, Testemunho e Esperança: a Rede FALE e os desafios do futuro.

Carta a reunião da Coordenação Nacional da Rede FALE (24 a 26 de Julho de 2015)

De: Marcus Vinicius Matos*

Tu te aproximaste quando a ti clamei, e disseste: "Não tenha medo".
Senhor, tu assumiste a minha causa; e redimiste a minha vida.
  
Com esta mensagem, gostaria de contribuir, ainda que a distância e de maneira fragmentada, com o encontro, as orações e os debates que vão ocorrer na próxima reunião da Coordenação Nacional da Rede FALE (CNRF). Já se passaram três anos desde que sai do Brasil para estudar, então é inevitável que este texto seja rasgado de memórias e emoções confusas - alegria, tristeza, saudades, aflições e esperança. Vou tentar resumir todos esses sentimentos em três palavras: Identidade, Testemunho (mensagem), Esperança.

Identidade 
A questão que mais foi discutida em Encontros Nacionais do FALE anteriores, e em reuniões como essa que se aproxima, é: “o que é o FALE?”. Essa foi uma pergunta tão recorrente na história da Rede, que as vezes ela chegava a cansar algumas pessoas. No entanto, entender quem somos, definir nossa identidade, é parte central da Missão e do Testemunho que o FALE profere. Em João 3:1-10, nós vemos claramente a consequência de não saber sua própria identidade: Nicodemos, uma “autoridade entre os judeus”, se chega a Jesus mas, porque não sabe quem é, também não reconhece aquele com quem dialoga. Ele chama Jesus de “Mestre”, mas não o reconhece imediatamente como Salvador, Messias - talvez mais um mestre, como ele também entendia que era. Na sequencia do texto, vemos o contrário: João Batista sabe exatamente quem é; por conta disso, não tem dúvidas a respeito de quem é Jesus. Sem titubear, profere (v28 e 30): "Vocês mesmos são testemunhas de que eu disse: Eu não sou o Cristo, mas sou aquele que foi enviado adiante dele”; "É necessário que ele cresça e que eu diminua”. Então, é preciso se conhecer, para poder reconhecer o Mestre. 

Depois, saber quem somos é central também para definir o que queremos. Isso ocorre tanto na dimensão macro, quanto na micro: se não sabemos o que é o FALE, como seria possível entender as diferentes possibilidades de atuação que se abrem diante da Rede? Ainda faz sentido ser “rede” ou "movimento social” em um universo permeado de “redes sociais”? A difusão de “grupos” online, facilita ou dificulta a dinâmica de “grupos locais”? Qual é, afinal, o papel da "coordenação nacional”? Todas essas são perguntas menores que, assim como a primeira, só podem ser respondidas por nós mesmos.   

Testemunho
A última tentativa de responder a essa clássica pergunta foi feita no Encontro Nacional de 2013. Naquela ocasião, houve um esforço prévio tanto da Coordenação Nacional quanto das Redes Estaduais e Grupos locais para colocar no papel essas respostas. Com a dinâmica das decisões que se tomaram, os textos acabaram não correspondendo a nova dinâmica da Rede. Contudo, creio que é preciso retomar aqueles textos, alterá-los - talvez transforma-los em imagem? -, como pré-requisito para darmos um novo passo. Nesse sentido, é preciso repensar a maneira como nos comunicamos enquanto Rede. A forma como as informações fluem no FALE tem que refletir a mensagem que pregamos, nosso Testemunho mesmo. É preciso que a comunicação ocorra com clareza e com justiça.


Penso que a Coordenação Nacional deve, com leveza e carinho, decidir como comunicar. E aqui, talvez seja importante dizer: isso que chamamos de “Coordenação Nacional” surgiu exatamente para que possamos compartilhar decisões. Até 2005, o FALE era formado por poucas pessoas, e conforme a rede cresceu, foi necessário surgir a CNRF, exatamente para descentralizar e democratizar as decisões. Nós estamos hoje coordenadores, exatamente para termos a possibilidade de coordenar - o que, as vezes, requer assumir os riscos e responsabilidades de tomar decisões. É necessário que nós, membros da CNRF, saibamos "o que é o FALE”. Se não soubermos quem somos, certamente não saberemos o que precisamos fazer. A consequência disso seria a perda de capacidade de mobilização da Rede: se nos silenciarmos, ou se enviarmos mensagens ambíguas para as pessoas, elas não compreenderão quem somos; qual é a nossa missão; qual é o nosso testemunho. E precisamos reafirmá-lo.

Esperança
Até aqui, talvez eu tenha ficado restrito ao que “foi” o FALE. E quero dizer que, ao trazer a memória essas questões, o Espírito Santo me enche de Esperança! Quantas coisas foi o FALE até aqui. Lembro do FALE como ponto de encontro: estudantes, sindicalistas, pastores, que se reuniam para orar por justiça - uma oração que mudava a cada um, nos levava a refletir e a agir. Lembro do FALE como uma procissão redimida: jovens crentes caminhando em passeata por ruas, universidades e favelas. Lembro do FALE como movimento: cartões, cultos públicos, encontros, congressos, debates. Por toda essa história que temos hoje, creio que estamos vivendo um momento singular.
 
Na Teologia da Missão Integral, nós somos chamados a “ver”, “sentir” e "agir”. Quero desafiar vocês a fazer esse exercício neste encontro da CNRF. Precisamos ter visão: o que está acontecendo no Brasil e na Igreja Brasileira? Como nos comunicamos com as pessoas, nossos irmãos de fé em nossa igreja local/grupo bíblico universitário? Depois, precisamos ter sensibilidade: quais são nossos sonhos coletivos? Ao ver a realidade ao nosso redor, o que se passa no coração de vocês? A partir do “ver” e do “sentir”, é que teremos capacidade de construir projetos e campanhas em conjunto, envolvendo pessoas, mobilizando recursos. 

Por fim, quero que esse texto seja uma mensagem de esperança, mas também de desafio. O que será o FALE no futuro? Por que caminhos precisamos andar? Qual de vocês sabe a resposta? Minha oração é para que Deus nos ajude nessa tarefa: que possamos testemunhar a partir do que somos. Se Cristo amou cada um de nós, da maneira que somos, é desse amor que precisamos e do qual temos que testemunhar. No âmbito da CNRF, que saibamos exercer liderança com amor, unidade, e a amizade na diversidade.

Desejo um ótimo momento de Encontro para a CNRF. E deixo um grande e saudoso abraço a cada uma e cada um.

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* Marcus Vinicius Matos é doutorando em Direito pelo Birkbeck College, na Universidade de Londres, e membro da Coordenação Nacional do FALE desde 2005. Foi Secretário Executivo da Rede entre 2009 e 2011.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Não leia se seu preconceito for maior que uma vida ou... antes dos 16

Silvana Bezerra Magalhães


Enquanto alguns insistem na meritocracia, na história do "eu lutei e venci"," eles também podem se quiserem", "a gente escolhe o que vai ser" e coisas desse tipo, eu vou olhando e escutando as histórias ao meu lado, ou melhor, do lado de lá da cidade.  Naquela parte da cidade em que alguns nunca ousaram pisar ou, se já foram, não viram realmente. Sempre gostei de olhar e escutar para aprender de verdade sobre a vida sobre o mundo, sobre o outro.

Olhar é uma coisa complicada, a gente vê o que quer ver, a gente não vê o que não quer. Os olhos são a entrada da alma. Não é por acaso que Jesus falou dos olhos, se os olhos forem bons, tudo se ilumina, se os olhos forem maus você só vê trevas nos outros. Você vê as trevas dos seus olhos cegos...

Hoje encontrei de novo o P., menininho pequeno, cabelo por cortar, pele negra esbranquiçada e ressecada pelo frio aqui da serra. Corpinho magro, ressequido pela pobreza e também pela falta de carinho,  nunca ninguém se preocupou em hidratar sua pele ou sua alma. Olhos espertos, espertos e tristes, tristes e desconfiados. A mesma idade do meu filho Pedro, oito anos, a mesma inicial dos nomes. As semelhanças acabam aí. O meu Pedro aprendeu a ler "sozinho" aos quatro anos. Claro, "sozinho", apesar dos livrinhos de tecido que com seis meses já líamos pra ele, das letras no quarto, da estante cheia de gibis. O P. não sabe ler, "cabeça fraca" como dizem os mais simples... Nunca teve um gibi, nem uma voz pra contar histórias ou canções de ninar antes de dormir.

Chego na escola onde ele estuda, estrada de chão, um quadro e carteiras, os computadores nunca funcionaram, o P. nunca mexeu num tablet ou computador, mas vê um todo dia no comercial da TV e sonha em ter também.

Pergunto para o P. sobre a mãe dele: "Ah, minha mãe ainda tá bebendo, tia".

Pergunto então sobre seus sonhos. Sempre pergunto sobre os sonhos das crianças. Os sonhos delas me explicam muito sobre o mundo em que vivem. Criança tem que viver num mundo em que seja autorizada a sonhar com nuvens de algodão doce, com princesas e dragões.. Já vi crianças que o maior sonho era ser manicure, ganhar cesta básica, o pai ficar bem de saúde, isso não é sonho pra criança.
Os sonhos das crianças desse lado da cidade são sonhos possíveis. Nunca ouço sobre ser astronauta ou arquiteto. Esses são os sonhos dos meus filhos. A gente só sonha sonhos possíveis, ou impossíveis quando vivemos num mundo que nos dá licença pra sonhar. Quem sonha não precisa pensar na sobrevivência o tempo todo. Mas o P. tem que pensar em sobreviver e sofrer o menos possível , se der.

"Meu maior sonho é que ela pare com a cachaça, tia". Esse é o sonho do P.  Na verdade ele não sonha nada pra ele, ele sonha um sonho lindo para a mãe, sonha com a mãe do comercial de margarina que ele viu na TV, ou apenas com a mãe por perto de verdade, sem ser levada pelos devaneios etílicos. E junto com a cachaça da mãe a desgraça ainda vem acompanhada do distúrbio mental, da mendicância, do cair na rua,  se machucar, ser machucada, abusada. "As vezes ela vai pra casa tia, outras ela dorme da rua. Eu fico triste...". E usou uma palavra elaborada para menino pequeno: "eu me sinto péssimo tia..."

O que será que sente um menininho de oito anos que vê a mãe jogada na rua e se diz péssimo? Nessa hora a gente engole seco, respira fundo, continua conversando para o silêncio não virar lágrimas. E fica pensando se deveria ter perguntado sobre sonhos num mundo em que não se permite sonhar, só sobreviver.

Até o ano passado ele morava com a mãe. Agora a tia resolveu criar, aquela solidariedade que só os "desgraçados do mundo" sabem compartilhar. Família de onze num pequeno apartamento doado para as vítimas da enchente, dois  dos filhos com deficiência, um não fala, o outro tem problema, sofre de convulsão toda hora. E a mocinha da casa as vezes vende o corpo pra ganhar uns trocados, pra sentir que alguém a quer, também não sonha, sobrevive. A caixinha com os sonhos cor-de-rosa e a roupa de princesa há muito empoeiraram num canto esquecido da alma.

Com tudo isso ainda encontraram um cantinho e um colchão para o P. Ali ele pode estar mais protegido do que morando na rua com a mãe que tem "problema de cabeça".

Só que nessa luta do dia a dia não dá tempo para lembrar que o menininho de oito anos ainda é uma criancinha, que precisa de proteção. Não dá tempo de lembrar disso tudo quando se tem que sobreviver. Então a rua cuida, ou descuida. Toda vez que vou lá no bairro fora da hora da escola encontro P. na rua, com os meninos maiores, solto pelas desventuras de se criar sozinho.

"Tia eu não gosto de apanhar, os grandes me batem sempre", ele me conta. E pra conter a raiva do mundo, ele também bate nos pequenos. Dos pequenos ele pode ser o chefe para se livrar do ódio da vida, da tristeza daquela semana que a mãe não voltou da rua, da raiva e da dor da surra dos grandes.

Mas dizem por aí que todos tem as mesmas oportunidades não é mesmo? Não é isso que ecoa pela mídia, pelas redes sociais, pelas falas de tantos, até ditos seguidores do Nazareno? "É só querer?"
E eu lembro do meu Pedro, que sonha em ser astronauta, que lê livros de duzentas páginas, que fala francês, brinca de lego e gosta de queijo "brie". Iguaizinhos, mas separados por um fosso de desigualdade já antes de nascerem...

É mentira, a vida não é igual para o P. e para o meu filho. Os olhos de muitos jogam o P. no fosso do mérito. Não é uma questão de escolha dele.

A escola do P. tem quase trinta pares de olhos curiosos, uma sala pequena, cinco séries diferentes estudam numa sala. Só lembrando, aqui é sudeste, onde me contam ser a região mais rica desse imenso Brasil. A professora dele é a grande heroína que tenta, sofre, luta, viaja todo dia atravessando a cidade pra tentar salvar o P. Mas é uma luta tão difícil, um contra o mundo.

E insisto de novo em perguntar sobre o sonho. Pergunto para o P. aquela pergunta boba que adulto gosta de fazer: o que ele quer ser quando crescer. A prima dele, que também estuda na mesma sala, já tinha me dito que volta e meia ele fala que quer ser bandido.

Onde o P. mora o bandido tem a moto mais maneira, o carrão, a roupa da moda, as meninas gostosas. E o bandido é "gente fina", dá bala, chocolate às vezes, tem cara de gente feliz, tem cara de chefe, de dono do pedaço, as vezes P. sonha que o bandido é o pai que ele nunca conheceu.

Então o P. me olha, sorri maroto e não me conta que está pensando em ser bandido. Depois abaixa os olhinhos marotos,  que logo ficam tristes de novo. Os olhos perdem o brilho do sonho, o de ser bandido e ele pensa no mundo possível. Ainda de olhos abaixados e bem baixinho me responde: "quando eu crescer eu vou capinar"... Eu pergunto de novo para ter certeza do que tinha ouvido: "quero capinar" ele fala ainda de cabeça baixa. Cabisbaixo com quem se contenta com a desgraça, que se contenta com o que ele sabe que é a escolha dos fracassados no mundo do mérito.

O P. sabe o que é possível, as escolhas são poucas. São as duas coisas que ele pode ser naquele mundo: capinar como o tio, viver na miséria sem dentes e mãos doloridas, cheirar a morte do veneno diário na plantação de flores da região ou virar bandido. São os mundos que nós permitimos que ele conheça, são as opções de mundo que ele tem...
E eu saio de lá com o coração apertado, do jeito que só quem sabe o que é a desgraça do mundo vai entender. Saio de lá com uma certeza doída  de que se tivesse nascido P. também escolheria ser bandido...

Essa história é verdadeira, se passou em algum lugar na serra fluminense. Não sei escrever ficção. Que pena que não é ficção. Histórias parecidas com essa se repetem todos os dias, agora, hoje, nesse instante em tantos cantos dessa cidade e desse país.
Nesse mundo que aos poucos vai transformando crianças em "monstros".
Contei isso para alguns que choraram comigo pelo P.
O que será que falaremos dele daqui a oito anos, quando tiver 16?
                                                                                                               


Silvana Bezerra Magalhães é evangélica, Professora universitária do CEFET-RJ e Doutora em Educação